O Jogo dos Sons

Em Montessori, antes sequer de se introduzir as letras, trabalha-se os sons a elas associados.

Numa fase inicial, trabalha-se os sons iniciais das palavras. Antes de ter feito o curso de Alfabetização em Montessori com o Gabriel Salomão, li no livro de Linguagem Montessori na Escuela Viva algo muito simples, com que decidi trabalhar a partir do nome da criança e da sua família, pois eles sentem-se logo bastante envolvidos! Afinal, é o seu nome, o dos manos, do papá e da mamã! Foi assim que começamos por aqui:

“O teu nome é dddddd(resto do nome). Começa pelo som d!”

“O nome da mana é lllllll(resto do nome). Começa pelo som l!”

No nosso caso, ele começou logo a perguntar ” E o papá? E a mamã?”

O nome do papá é pppppp(resto do nome). Começa pelo som p (e aqui ele já começou a fazer comigo).

E o nome da mamã é Aaaaaaana, começa pelo som a (neste caso usei e tenho usado o som absoluto – a aberto). Ááááááána tem o som também de ááááárvore e de ááááágua!

No entanto, após ter feito o curso do Gabriel, percebi que esta pode ser uma abordagem, mas acaba por ser como uma aula, tipo as que eu dou no 1o ciclo 😛😛😛. Ou seja, retira o protagonismo da criança na aprendizagem e esse acaba por ficar em quem ensina! Não é que o meu filho não tenha gostado, mas após aprender com o Gabriel, e 3 meses passados (escrevo esta atualização a 10/8/2020 sendo que o curso foi em maio), agora entendo porque a versão ensinada pelo Gabriel (que entretanto fui ler também no livro da Lynne Laurence, entre outras abordagens indicadas) é a que mais dá protagonismo à criança, no sentido em que é a PRÓPRIA CRIANÇA A CONSTRUIR A SUA APRENDIZAGEM (tornando-se esta mais efetiva 😉 )
Então, como se faz?
Numa caixa (que depois se poderá colocar à disposição da criança no seu ambiente preparado) coloca-se alguns objetos que comecem por sons diferentes entre si. Numa 1a fase, dependendo da criança, pode-se começar por uma apresentação com 2 objetos, aumentando conforme a facilidade que a criança revelar no exercício.
Então, pega-se num desses objetos, olha-se para o mesmo na mão e diz-se:
– “Vejo, vejo na minha mão um objeto que começa pelo som mmmm”
A criança olhará para o objeto e dirá “Maçã!”.
É importante que sejam objetos que a criança já saiba nomear.
Depois deve-se realizar o mesmo com o outro objeto. Dependendo do interesse e entusiasmo (ambos os meus filhos adoraram este jogo e revelaram logo imenso entusiasmo por ele, daí a minha decisão em modificar o nosso modus operandi a meio do caminho), pode-se ir incluindo mais objetos. No nosso caso teve de ser, tal era o entusiasmo.
Com o mais velho chegamos rapidamente à 2a fase do jogo, talvez porque ele já estava habituado a trabalhar os sons da forma como fizemos antes. Nesta 2a faze, em vez de ser com objetos na mão, passa a ser com objetos no ambiente em volta. Olhamos para o objeto e dizemos o mesmo:
– “Vejo, vejo, um objeto que começa pelo som ccc”
-“Colher!”
Fazemos muito este jogo quando estamos na cozinha! 😊😊😊
Como são estes sons, como se dizem (uma coisa é ler, outra é saber como). Espreitem aqui! A Escola de Campinas fez um trabalho fantástico nestes vídeos com os vários sons (sendo que alguns poderão ser diferentes dos nossos em português de Portugal). Aqui um vídeo da Sylvie D’Esclaibes que ensina como fazer: https://www.youtube.com/watch?v=MJnWUpaZoac
Então, o que acontece?
A criança vai tomando consciência dos sons. Por ela, sem ninguém “ensinar”. É um jogo, é uma aprendizagem lúdica, divertida! 
Claro que a dada altura ela começará a dominar o jogo, e aí podemos ver se ela está preparada para trabalhar os sons finais. 
Quero reforçar que, em todo este processo, antes e depois, é importante ler, cantar, falar com a criança. Dos 0 aos 6 ela está no período sensível da linguagem, então tudo isto é fundamental para o seu desenvolvimento. Prosas, poesias, onomatopeias, tudo ajuda à percepção de sons e trabalho do ouvido para os mesmos.
Assim, por exemplo, as rimas das canções e dos poemas ajudam à perceção/descoberta dos sons finais, que são ensinados da mesma forma de jogo já anteriormente explicado.
A caixinha com gavetas com os objetos pode ser uma variante da 1a caixinha de objetos. Este tipo de caixas vêm-se muito em blogs de homeschool Montessori, e acredito que ajudam a despertar o interesse também pelas letras associadas aos sons dos objetos. 

Imprimi as letras já com o código de cores que vamos usar com o nosso alfabeto móvel, que segue a combinação de cores do livro “Pedagogia Científica” de Maria Montessori: vermelho para as vogais e azul para as consoantes (podem aceder ao imprimível aqui).

Friso esta questão das cores porque é ao contrário do que se vê normalmente vendido por aí. No entanto, entre os materiais franceses, encontra-se este código também, e o nosso alfabeto móvel foi comprado numa loja francesa: Nature et Decouvertes. Pessoalmente, também prefiro este código de cores 🙂

As gavetinhas acrescentaram a consciência de que mais palavras começam pelo mesmo som: ddddddinossauro dddddado, dddddominó.

llllleitão, lllobo, lllllibelinha

Eles vão relacionando os sons iniciais destes objetos e, quando o interesse pelas letras surge, ajuda na identificação fonema-grafema.
A introdução das letras de lixa é realizada de forma diferente por diferentes montessorianos. Enquanto Gabriel Salomão indica que só se deve apresentar as letras de lixa quando a criança já domina sons iniciais, finais e intermédios e sabe inclusive indicar a ordem de todos os sons de uma palavra, Lynne Lawrence, autora do livro “Ayude sus hijos a leer y a escribir con el método Montessori”, fala também da possibilidade de ir apresentando quando a criança já domina grande parte dos sons iniciais.

Este Jogo de Sons Iniciais pode, segundo a Lynne Lawrence, iniciar-se por volta dos 2 anos e meio, 3 anos. Mas convém observar a criança, sempre. 
Claro que isto não implica que, de quando a quando, não façam uma pequena apresentação dos sons aos vossos filhos, a ver como corre. Seguindo sempre aquele princípio: gosta, alimenta-se, não gosta, nunca forçar, guarda-se para mais tarde.

E, a dada altura, eles vão querer saber/aprender. Vai haver uma altura em que eles vão achar este jogo engraçado.

E sim, houve uma altura em que eu própria duvidei se isto da consciência fonológica, letras, leitura e escrita que Maria Montessori descobriu nas crianças tão novinhas que estudou se aplicaria à minha criança também. Uma aprendizagem que fiz ao observar este processo com o meu filho e com a minha filha, mais pequena, é que devemos sempre apresentar o jogo e ver. O período sensível da linguagem, na verdade, torna este tipo de jogos de sons super divertidos para eles. Há mais jogos. Por respeito aos guias e professores de cursos de linguagem Montessori, não indicarei mais jogos aqui, mas recomendo muito, muito que façam formação com eles!

Entretanto, questionei-me muito sobre que letras de lixa apresentar: as maiúsculas de imprensa, que são as utilizadas no pré-escolar dele (e na maioria das pré-escolas portuguesas)? As minúsculas de imprensa, que são as que aparecem nos livros? As minúsculas manuscritas, que são as que Maria Montessori usou com as suas crianças e as que se usam em muitas  escolas com guias AMI?
No livro já atrás referido, “Ayude sus hijos a ler y escribir com el Método Montessori” ajudou-me a decidir: vamos fazer como Maria Montessori fazia. Gabriel Salomão também ensinou com minúsculas manuscritas. As
razões são muitas:

  • Em Montessori, começa-se pela consciência fonológica, mas de seguida a criança aprende a escrever 1º, e não a ler. E porquê? Porque assim aprende a transmitir primeiro algo que vem de dentro de si, e não ler primeiro algo que é o pensamento de outro. Já sabemos que a Pedagogia Montessori tem uma visão muito holística da criança, e aqui está mais uma razão, e é belíssima 🙂
  • Para as crianças será muito fácil aprender as letras maiúsculas de imprensa numa fase mais para a frente, logo não vale a pena gastar tempo com as mesmas agora.
  • Como não existe competição nem um tempo estritamente marcado para a aprendizagem das letras manuscritas, o tempo está a favor da curiosidade e vontade da criança, pelo que teremos tempo para ir aprendendo a fazer bem. A criança, no tabuleiro de areia, vai aprender a desenhar corretamente a letra, iniciando no ponto certo e criando os pontos de ligação, que ajudarão mais para a frente à ligação entre as letras na escrita da palavras. Isto evita a aprendizagem da escrita com erro como muitas vezes acontece, por exemplo, no 1.º ciclo, com a velocidade a que se tem de dar toda a matéria: há erros que passam e vícios de escrita que se formam e que são, depois, difíceis de alterar.
  • A forma de escrever em Montessori, nesta fase, não obriga a um domínio já bem definido do uso do lápis: primeiro vamos usar o tabuleiro de areia, o chão ou a terra, depois usaremos um quadro de giz. As atividades sensoriais e de Vida Prática vão também ajudar a definir a motricidade fina de modo a que, quando o movimento de pinça e a capacidade de segurar o lápis estiverem desenvolvidos, a criança facilmente adaptará a escrita ao papel.
  • A escrita manuscrita tem benefícios bem explícitos: permite expressar de forma fluída o pensamento; permite a interligação entre as letras e ajuda a criança a perceber claramente onde é a fronteira da palavra.
  • Estão confirmados pelas neurociências os benefícios para o desenvolvimento do cérebro com o uso da escrita manuscrita, por isso é que a mesma ainda é ensinada nas nossas escolas do 1o ciclo.
  • As crianças com dislexia tendem a confundir menos algumas das letras mais problemáticas: p q d b, pois as suas versões manuscritas são diferentes, e quando estas crianças contactam finalmente com as letras de imprensa já têm o processo de leitura bem construído.
  • A criança que escreve depois facilmente associa as letras de escrita às letras de leitura (sim, às de imprensa 🙂 ).
  • Este artigo baseado em evidências científicas da importância da escrita aqui.

Voltando ao jogo dos sons, desta vez na perspetiva de Lynne Laurence, nos entretantos da apresentação das letras de lixa, podemos começar então a dar atenção aos sons finais das palavras.

Aí podemos introduzir as rimas e objetos que rimam entre si para associar. Mais uma vez, os objetos ajudam ao jogo, mas não são essenciais. Este tipo de jogos podem-se fazer inclusive em viagens de carro longas como brincadeira.

Por fim, e após este trabalho, passa-se a discriminar os sons intermédios.

Deixo-vos aqui uma tabela que ajuda a perceber este processo, do livro que já referi.

Mas em casa é tendencialmente um processo mais lento que uma escola Montessori. Ou porque não temos tanto tempo, ou porque falta o exemplo de outras crianças para estimular a curiosidade e partilhar conquistas e aprendizagens!
Não se assustem se as coisas não correm nas idades referidas na tabela. Definitivamente, só o facto de tentarem é mt bom, será uma grande ajuda ao desenvolvimento das vossas crianças 🙂

Entretanto, a escola Galicia Montessori partilhou este vídeo, e realmente dá para para perceber que este processo tem a ver com cada escola, cada guia, cada pessoa. Espreitem 🙂

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