Avaliações, os dias que mais custam

Das coisas que menos gosto de fazer é avaliar = dar notas escolares.

Estes dias de reuniões de avaliação são dos mais difíceis dias da minha profissão. Além de cansativos, morosos, burocráticos, são os dias em que deixamos de ver os nossos alunos (os seres vivos únicos e especiais, as crianças, os sorrisos, as enormes ou as mais pequenas evoluções) para apenas os vermos como números/expressões de avaliação. 

E frequentemente me pergunto “Para quê?”

Avaliar é bom. É algo positivo que fazemos todos os dias, provavelmente, sempre que tomamos qualquer decisão e avaliamos as consequências das mesmas. E por vezes temos ainda um feedback dos outros que connosco convivem, que nos ajudam a orientarmo-nos e a ajustarmos o nosso caminho.

Mas ninguém de fora com um jugo “superior” (que sabe pouco da nossa vida, e muito menos sabe tudo sobre as dificuldades que passamos todos os dias) deveria vir escrever num qualquer relatório ou em fichas de avaliação bitrimestrais “Suficiente”. “Muito Bom”. “Insuficiente” nestas aprendizagens da tua vida, de cada vez que tomamos essas decisões. Tipo, já não basta a dificuldade de passarmos por elas e nem sempre nos sentirmos preparados ou a saber bem o que fazer, ainda temos que levar com estes rótulos na cara.

Eu entendo a visão de que as mesmas são uma orientação indicadora de se estás a ir por um bom caminho ou se precisas de trabalhar mais para acompanhares o ritmo que te é imposto (na escola, ritmo imposto por um currículo igual para todos como se todos fossem iguais…). Para algumas pessoas são ainda um “prémio”. Mas será mesmo necessário ser assim?

Como professora, dou várias indicações e possibilidades de descoberta e evolução aos meus alunos, TODOS OS DIAS e VÁRIAS VEZES AO DIA. Acredito que praticamente todos os professores do 1o ciclo o fazem, dos outros ciclos provavelmente também, e só não o farão mais e melhor devido à quantidade BUROCRÁTICA astronómica que nos tira energia e força. 

Todos os dias e a todos os momentos eles sabem o que estão a aprender, lhes são feitas perguntas variadas sobre os temas, são feitos vários exercícios diferentes e (com sorte), motivadores da aprendizagem, são feitas revisões… E crianças que sabem o caminho que estão a fazer, que sabem o esforço que estão a aplicar nesse caminho, não deveriam ser comparadas seja com o que for. Porque sejamos sinceros, ao avaliarmos com rótulos, estamos sempre a comparar os nossos alunos a um aluno imaginário perfeito que aprende tudo o que ensinamos exatamente no momento em que ensinamos (como se todas as crianças estivessem despertas de forma igual para todos os temas de aprendizagem pré-definidos por qualquer Ministério) e aplica esses conhecimentos com rigor em fichas de avaliação e outros trabalhos (se tiver a sorte de ser avaliado por outros trabalhos) com absoluta perfeição. Excepto crianças sobredotadas ou quase, quem é esse aluno? 

Então, aí entra também a subjetividade do professor. Porque nós vemos os percursos deles. Nós vemos a evolução, o ritmo, as condicionantes e as coisas a favor. E elas são tantas e tão distintas que NENHUMA NOTA que a gente dê é verdadeiramente justa. 

Quem somos nós para comparar o filho da mãe solteira que sozinha se esforça já tanto para pôr o jantar na mesa? Da empregada fabril que chega a casa cansada do som das máquinas das 8 horas de trabalho e que só quer silêncio? Da mãe com vários trabalhos sazonais só para trazer dinheiro para casa? Do pai que, tendo sido ele próprio maltratado na infância, nem sempre consegue fazer melhor pelo filho mas está a esforçar-se? Da mãe com algum problema de saúde, ou que trata de alguém com problemas de saúde, ou até da própria criança com problemas de saúde? Da família com posses e regalias mas que esconde problemas emocionais enormes? Ou até da própria família com posses e regalias e sem problema nenhum. 

Como podemos nós comparar? Como podemos nós classificar? Como podemos colocar todas estas crianças num pote e classificá-las justamente? A resposta é: não podemos. Por muita noção que possamos ter duma ou outra situação familiar, na maioria das vezes nem sequer sonhamos ou imaginamos o que se passa realmente. 

Por isso é que, para mim, a escola deveria ser um lugar bonito, feliz e seguro para as crianças aprenderem, estarem e acima de tudo, serem felizes nela. 

A escola deveria responder mais aos verdadeiros desejos e ímpetos de aprendizagem destas crianças, permitir a descoberta constante, com professores a orientar e a ajudar a manter o foco. Uma escola-museu, uma escola-oficina, uma escola-casa. Um lugar onde eles possam ser felizes.

E que avaliação tivesse apenas o papel que a mesma tem na vida: uma orientação para nos ajudar a delinear melhores caminhos, a trabalhar mais afincadamente nos nossos projetos, a elevar a nossa auto-estima e a nossa alma…

Porque sejamos sinceros: ao fim do 1o.ciclo, quantas crianças ainda têm aquele brilho nos olhos? Aquele verdadeiro amor próprio que as caraterizava nos primeiros meses do 1o ano (antes de levaram com a “bofetada” de conteúdos)? Quantas crianças sabem realmente alguma coisa que vá de encontro com os seus reais interesses? E o que é que isso, mesmo isso, lhes interessa, se vão ter de levar com um “Suficiente”, “Muito Bom” ou “Insuficiente” por causa disso? Será que vale sequer a pena tentar?

Sabemos que muitas crianças se “perdem” pelo caminho exatamente por causa desta comparação constante, que não respeita os seus ritmos pessoais e tantas vezes as suas verdadeiras capacidades (que normalmente estarão fora da oferta educativa que os currículos escolares podem ter). E ainda impera a ideia de que todos eles têm de ser bons ou muito bons a tudo, ou não estão a aprender as competências necessárias para seguir este caminho escolar pesado, triste e cheio de conhecimentos inúteis que nunca mais serão usados na vida.

Repare-se que eu não sou contra o conhecimento. Saber não ocupa lugar e as crianças respeitadas realmente adoram aprender, sempre. Crianças respeitadas são ávidas de conhecimento, querem mais e mais, quando se vai de encontro com os seus interesses. Mas impor-lhes conhecimentos mastigados e vomitados por um professor, definidos anteriormente por um ou uns quantos srs. doutores numa secretária e por uma ordem pré-definida para o tal aluno imaginário perfeito, não deveria ser o caminho a continuar a seguir. Já se vê melhorias com as medidas tomadas pelo actual Ministério da Educação. Mas tem de se definir uma outra forma de avaliação, pôr maior peso nas aprendigens do dia-a-dia, e parar de valorizar tantos os testes, exames, etc (por mim até poderiam desaparecer). 

Mas, como lidar com as ansiedades dos pais? Cada vez percebo mais que as avaliações existem como existem por causa desta necessidade dos pais de saber que notas têm os filhos. Eu entendo. Mas não seria melhor, por exemplo, libertar os professores de tanta burocracia e dar-lhes tempo para atender e dar um feedback mais contínuo aos pais, sem ser necessário estar sempre a pressionar as crianças?

Por causa dos adultos, mais uma vez, são as crianças que sofrem desnecessariamente. Levam com rótulos que atacam a sua auto-estima numa altura em que as aprendizagens que têm de fazer são difíceis já por si, destroem a sua vontade natural de aprender, os enche de ansiedade em idades em que deveriam ser felizes para se tornarem adultos calmos, resilientes, gentis…

Então, a meu ver, a solução seria por aí. Libertava-se os professores da burocracia e permitia-se tempo para um maior diálogo escola-família. Uma acompanhamento mais tranquilo e pessoal entre todos. Feedbacks mais frequentes que permitem respostas mais atempadas e ágeis. 

Mas claro que tudo deveria passar por um currículo mais aberto e por turmas mais reduzidas, exigências pedidas pelos professores à tutela desde que me lembro de ser professora.

Trabalho numa escola de aldeia, com poucos alunos, e acumulando anos de escolaridade na mesma turma. Mas vejo aqui muito claro que a relação escola-família é muito mais próxima e fácil, mesmo com a burocracia. Só não é melhor por causa desse excesso de papéis. Se fosse assim em todo o país, estou certa de que estes rótulos estúpidos deixariam de precisar de existir.

Claro que também teria de se fazer um trabalho com as famílias para ajudar a entender a todos o que é o mais importante. O nosso país ainda baseia a sua ideia de um bom percurso escolar como aquele em que as crianças têm de sofrer, repetir muito até aprender, muitos tpc, muitas fichas e ainda muito trabalho nos manuais… Afinal, no tempo de Salazar até se batia com as cabeças dos miúdos no quadro a ver se a coisa entrava… mas por todo o mundo se prova de que isso claramente não é preciso. Deixou de se bater nos miúdos e, surpreendentemente, eles não deixaram de aprender. Por isso, se se deixar finalmente de lado o método tradicional de aprendizagem que tem mais de 300 anos e se se abraçar o séc. XXI em que nos encontramos, com aprendizagens mais efetivas baseadas em estudos científicos, neurociências, materiais manipuláveis, ambientes preparados fisicamente e tecnologicamente e se se seguir os interesses das crianças, supreendam-se: as crianças vão continuar a aprender, mas no seu tempo histórico. Para o seu futuro e não para o nosso passado. 

Não é deixar as crianças fazerem o que querem. Não é a máxima que se ouve por aí “deixar as crianças serem crianças”. É deixar as crianças serem os adultos de amanhã, donos do seu caminho e do seu futuro, num ambiente que favorece quase automaticamente a aprendizagem. Orientando-os, mas com a humildade de ver quem eles são e não com o orgulho de que tudo sabemos. Porque não sabemos.

Eu sei, tantos me dirão que são ideias utópicas. Mas, na verdade, nunca estivemos tão próximos. Em muitas escolas já se observa e comprova estas teorias, a ciência apoia-as e as crianças que dessas escolas saem tornam-se adultos mais conscientes, com maior capacidade cooperativa, maior aceitação da diversidade, com total autonomia no seu trabalho e capacidade critativa e construtiva, auto-estimas saudáveis e capacidade de conexão em rede como ninguém. Em oposição aos alunos que saem do sistema actual desmotivados, sem esperança, auto-estima baixa e um bolso cheio de conhecimentos antiquados que pouco os ajudarão realmente no mercado de trabalho (e esta última observa-se mesmo que tenham boas notas).

Essas escolas são as alternativas: Montessori, Waldorf, Reggio Emília, Inteligências Múltiplas, Inteligência Emocional, Escola da Ponte, Comunidades Educativas… Todas elas provam o mesmo: seguir os seus interesses é a diferença que faz a diferença.  

Por isso, rótulos para quê? Avaliações rotulativas para quê?

Sim, adivinharam: servem apenas para servir os adultos, mas não as crianças.

Até breve.

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