Reflexão: 3 anos de uma turma mista no Alentejo 🙏🙏🙏

Que conclusões tirar de 3 anos, de turmas mistas de 3, depois 4 e este ano 2 anos de escolaridade e com um foco Montessori como guia para o processo de ensino-aprendizagem na escola pública?

Foi uma experiência incrível, e provavelmente os únicos anos em que me senti uma professora plena, respondendo a particularidades dos meus alunos, respeitando o melhor possível os seus ritmos, formas de aprendizagem, interesses, mesmo com um programa curricular exigentíssimo a cumprir, uma pandemia e exigências profissionais (papelada) e pessoais (filhos) a complicar o processo.

Assim, de um modo geral:

– Foi importantíssimo para mim fazer formação. Em definitivo, fazer formação realmente ajuda-nos a ser melhores professores e profissionais. As formações que fiz em Montessori ajudaram a preencher um grande vazio que eu encontrava entre as formações para docentes disponíveis em Portugal, que, a grosso modo, são sempre as mesmas desde que me lembro. Trágico para quem gosta de aprender, como eu. Sou, por isso, grata a tod@s os que, de forma tão generosa, partilharam conhecimento comigo: as mães Montessori de Portugal, Espanha, França, USA, etc. (somos uma comunidade), às formadoras AMI e de outras entidades, aos meus filhos que mostraram que, com este método e filosofia de vida, aprender torna-se fácil e motor de felicidade com sorrisos e brilhos nos olhos (algo que gradualmente deixei de ver nos olhos dos alunos desde Crato). A Pandemia trouxe a possibilidade de fazer formação online, e isso foi algo muito bom para levar Montessori a mais pessoas que desejavam saber mais.

– Garantir materiais Montessori ou Montessori Friendly, disponíveis aos alunos para aprendizagem, reforço de aprendizagem ou auto-aprendizagem, fez uma diferença astronómica na aprendizagem dos meus alunos. Despertou curiosidades, interesses, motivou para ambas as aprendizagens (formal escolar e informal – montessoriana), permitiu a descoberta do mundo a partir deste nosso meio rural e por vezes limitado, tornou a aprendizagem mais ativa, dinâmica e culturalmente interessante. 

– A interdisciplinaridade torna-se fácil. O mundo e as diferentes áreas (Matemática, Português, Estudo do Meio, Expressões, Cidadania, TIC) interligam-se pois, na realidade e no mundo, a sua separação é inexistente. Além disso, as crianças processam e aprendem muito melhor conteúdos interligados do que se pensa, pois nestas faixas etárias estão no 2.o Plano de Desenvolvimento e estão particularmente sensíveis a esta interligação (elas querem compreender o mundo).

– Nestes 3 anos, colegas de outras áreas: Ed. Inclusiva, Inglês, AECs, psicologia, educação social e educação artística passaram por esta turma e partilharam reflexões que considerei importantes para ajudar a compreender como a aplicação de príncipios da Educação Positiva e Montessoriana torna estas crianças diferentes, para melhor:

           – As colegas de Ed. inclusiva elogiavam a relação de proximidade que eu tinha com os meus 2 alunos com NEE e com os restantes. Afirmaram que a forma como eu trabalhava com eles (Montessori, trabalhos de grupo, trabalho igual em volta de histórias com fichas adaptadas aos diferentes níveis e graus de aprendizagem, projetos e alguma possibilidade de escolha de materiais e aprendizagens) realmente tornava-os mais recetivos à escola e à aprendizagem em geral, e eram claramente alunos felizes e incluídos.

           – A professora de Inglês, no final do ano, referiu que esta turma fora a melhor de se trabalhar, por características específicas e próprias da mesma: a facilidade de se fazer trabalho de grupo com verdadeira dedicação de todos os membros; esta turma, além de ter alunos bem educados e com vontade de aprender, era realmente uma equipa que funcionava pelo melhor de todos.

           – Nas AECs eles eram referidos como ativos, algo conversadores, mas aplicados e educados (crianças normais e felizes, portanto 😂😂😂 Àquelas horas, também já não se esperam milagres)

           – A psicóloga e a educadora social que fizeram alguns momentos de role-playing com a turma, ao nível da Educação Emocional, referiram que ficaram surpreendidas com o facto de que está fora a única turma que tiveram até ao momento em que a palavra ou a intenção de vingança nunca se revelou em nenhum momento.

Para mim, como docente, este feedback foi importantíssimo para reforçar a boa escolha do processo que escolhi para trabalhar com estes alunos.  Fiquei muito feliz pela escola, por mim, por Montessori, por eles e pelas suas famílias. Sem dúvida que este foi um grande trabalho de equipa, e que não faz sentido se de outra forma. 

As avaliações sempre revelaram que este é um processo positivo também. É claro que não tenho como saber se, num ensino tradicional, estes alunos não teriam tido na mesma as mesmas notas que tiveram com Montessori. É possível que tivessem iguais, não sei. O que sei é aquilo que vi: as notas foram, no geral, boas. As notas baixaram com os confinamentos devido às Pandemia. Ao ensino online falta a presença de todos os outros, a relação aluno-aluno-alunos-professor que tínhamos na escola, os materiais, a comunicação próxima, o recreio, a brincadeira. As famílias fizeram um esforço magnânimo, mas não ficou dúvida a ninguém: as crianças aprendem melhor e são mais felizes na escola, com todos e entre todos.

Se no início do trabalho com estes alunos houve alguma estranheza por parte de alguns encarregados de educação, no final o feedback foi positivo. Claro que nunca se vai agradar a todos. Há e haverá sempre encarregados de educação que consideram que o ensino tradicional é o único que funciona (aka, o melhor para tirar notas altas). Na verdade, é para esse ensino que estes alunos provavelmente irão, agora que saio desta escola e em que alguns transitaram para o 5o ano. O tempo dirá.

Mas, e usando as palavras positivas que me foram transmitidas pela maioria dos E.E., “os materiais foram uma mais valia para que os alunos percebessem melhor os conteúdos curriculares”, “os trabalhos de projeto entusiasmaram e motivaram muito os alunos, principalmente durante os confinamentos”, “as crianças aprenderam muito sobre computadores durante os confinamentos”, “o meu filho nunca disse que não queria vir para a escola, ao contrário do primo, que anda numa escola de cidade e detesta a escola”, “afinal a vantagem de ser uma turma mista é que, como eles ouvem as explicações da professora aos mais velhos, no ano seguinte é-lhes mais fácil porque já ouviram e até aprenderam no ano anterior”, “com este trabalho que a professora fez com eles, eles adaptar-se-ão melhor a qualquer professor, seja mais tradicional ou com métodos diferentes”, “esta é realmente uma turma unida e são muito amigos uns dos outros, e também aprendem muito uns com os outros”, “são crianças que adoram a escola, que todos os dias querem vir para a escola e vêm entusiasmados”.

Como será o meu próximo ano letivo? Não sei. Desta vez fiquei colocada numa realidade completamente diferente, quase oposta: cidade do norte do país, escola de turmas de um só ano letivo (o que confesso que me agrada, pois coordenar conteúdos curriculares de vários anos de escolaridade deixou-me exausta), escola moderna de salas pequenas, turmas grandes, recreio de betão quase sem árvores…

Como será que vai ser? Dizem-me que há abertura e desejo de formas pedagógicas diferentes, será que sim? E como resolver a falta de espaço duma sala pequena cheia de alunos? A ver vamos. No entanto, não desisto e aceito o desafio. Montessori faz de nós seres melhores. E é tudo o que desejo para o futuro da Humanidade ❤️🙏

❤️🙏 Gratidão, muita gratidão aos meus alunos-professores, ao Agrupamento em que estive nestes 3 anos e às famílias que me apoiaram. Nunca vos esquecerei ❤️❤️❤️🙏🙏🙏
Até breve!

0 Thoughts to “Reflexão: 3 anos de uma turma mista no Alentejo 🙏🙏🙏”

  1. ana

    <3 <3 <3 Um grande abraço 🙂 <3 <3 <3

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